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Demissão dos professores
Recebi de Carlos Martins, aluno do curso de especialização em História e Cultura Afro-Brasileira e professor de História da rede particular de ensino e do estado da Paraíba, um comentário a respeito do artigo publicado neste blog, " A violência contra os moradores de rua", em que o professor se identifica com todos que, na sua mesma condição, estão sofrendo neste Natal com a demissão sumária e sem nenhum aviso, dos prestadores de serviço. A indignação do professor Carlos Martins é uma luz que se apresenta, em forma de resistência, pelo fato de não se conformar com a injustiça cometida contra os trabalhadores da educação. Segue o texto na íntegra.
"Semana passada presenciei cenas que reacenderam minha capacidade de indignação. Até então estava recluso em minha covardia, mesmo sabendo que trabalhadores da educação estavam sendo massacrados com todo tipo de humilhações. Chamo aqui de trabalhadores da educação aqueles que vigiam escolas, fazem a merenda dos jovens e adolescentes, zelam pela disciplina no espaço escolar.... e, por último, aqueles que ministram aulas, que preenchem cadernetas, que fazem projetos... o professor. Chamo de massacre o fato de muitos desses profissionais terem trabalhado o ano todo e só terem recebido alguns meses de salário. Escutei relatos de pessoas que só começaram a receber a partir do mês de julho de 2011. Professores que durante todo o ano só receberam quatro meses, pois o salário de novembro foi cortado em virtude da divulgação de uma “lista”, posteriormente anulada, mais que continha nomes de professores que por esse motivo, não receberam dinheiro e nem sabe se irão receber. Depois dessa lista, ocorre a divulgação de uma segunda, considerada “definitiva”, contendo os nomes das pessoas que não fariam mais parte dos quadros do governo do Estado. Nessa segunda lista constavam nomes de porteiros, vigias, agentes de limpeza, etc. Algumas escolas ficaram sem poder conter sequer com um vigia. Não consta na segunda lista nomes de professores, mas sabe-se que é apenas questão de tempo, pois a demissão degradante está prevista para o final de dezembro. Demissão sumária, imoral, repugnante e inaceitável, ainda mais pelo fato dessa lista só ter sido divulgada no final do mês de novembro, depois que os trabalhadores passaram todo o mês dando sua contribuição para o bom andamento dos trabalhos de educação. Ao término do mês descobriram que seus salários haviam sido bloqueados. Na busca por explicações nos órgãos competentes, escutaram que seus contratos haviam sido encerrados desde o dia primeiro de novembro. Presenciei a indignação de uma dessas vítimas procurando saber por que os responsáveis pela demissão não tiveram pelo menos a nobreza de comunicar o afastamento no início do mês, pois assim não teria lançado mão de seus minguados recursos para se deslocar até seu posto de trabalho. Do outro lado, a explicação cínica, desumana, covarde, cruel e arrogante de que os trabalhadores não foram avisados simplesmente por que ocorreu uma “falha na comunicação”. Vale salientar que os trabalhadores não se submetem a essa situação por prazer, por masoquismo, por gostarem de ser humilhados. Muitas das vítimas são mulheres separadas do marido que sustentam a casa sozinha. Muitas vezes a única renda que possuem é a que provém da prestação de serviço ao Estado. Atente-se para o fato de que vivemos em um dos estados mais pobres da federação e que o índice de desemprego é alarmante. Nossas autoridades bem sabem disso. Sabem que a oferta de mão de obra supera a procura e aproveitam para submeter os trabalhadores a tratamentos vexatórios. Enfim, retomo aqui a metáfora do grande professor Jomar Ricardo Silva, falando do tratamento desumano dispensado aos mendigos em São Paulo. Sim, professor, além dos mendigos, cristo é também nesse mês de novembro a figura dos prestadores de serviço do Estado, especificamente a dos trabalhadores da educação, pois os funcionários trabalharam todo o mês para no final descobrirem que seus contratos estavam encerrados...não receberam nem o salário do mês." Carlos Martins
Escrito por jomarricardo às 22h26
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A Universidade vai à escola: presença da UEPB no Raul Córdula
A Universidade Estadual da Paraíba foi convidada a participar na Escola de Ensino Fundamental e Médio Raul Córdula, dias 16 e 17 de 2011, das atividades alusivas a semana da Consciência Negra. A iniciativa teve o objetivo de compartilhar saberes e práticas desenvolvidas pelos docentes / discentes das duas entidades de ensino. Dessa forma, compreende-se como a Lei 10.639/2003, que trata da obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas, está sendo vivenciada em sala de aula. A legislação estabelece diretrizes com conteúdo “que incluirá o estudo da História da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.” Esse intercâmbio de conhecimento permite que a universidade socialize sua produção acadêmica, fruto das pesquisas do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiro e do Curso de Especialização em História e Cultura Afro-Brasileira, realizando as finalidades para as quais foram criados. Ou seja, atender as demandas que a sociedade requer em termos de conhecimento crítico, contribuindo para a construção do conhecimento voltado para os valores da cultura dos povos da África e, consequentemente, combater o preconceito étnico-racial que implica uma série de opressões socioeconômicas concernente aos afro-brasileiros. Durante as apresentações dos jovens da Escola Raul Córdula, vimos que houve um tempo de trabalho educativo em sala de aula, de modo multidisciplinar, em que os conhecimentos da Geografia, História, Língua Portuguesa e Literatura se encontraram para a elaboração de projetos sobre a temática em forma de dança, teatro e literatura. O resultado promissor vem em decorrência da unidade entre direção, coordenação, funcionários e professores que, juntos, somaram esforços com propósito de oferecer um quadro representativo dos trabalhos efetivados pela escola durante o transcorrer do ano. A turma do 3º ano C produziu a peça “Solar dos príncipes” de Marcelino Freire, conto do livro Contos Negreiros, numa demonstração que a literatura pode se fazer vinculada ao teatro, criando uma estética de grupos marginalizados para refletir sobre a condição social dos marginalizados e produzir um reconhecimento da situação de classe de excluído, necessário à emancipação. Dessa forma a consciência encontra-se consigo mesma e a realidade, percebendo os fatores de diferenciação entre si e o outro. O conto que narra a ousada aventura de “quatro negras e um negro” de uma favela, que com intuito de fazer um curta, tentam convencer o porteiro de um condomínio de luxo de uma grande cidade, a abrir o portão para conhecer a vida dos residentes. Na voz da personagem Caroline "A idéia é entrar num apartamento do prédio, de supetão, e filmar, fazer uma entrevista com o morador." Presenciamos outras expressões culturais, como a de Renally, que com muita graça e leveza, estudante do 2º ano, reuniu o clássico e popular, ao fazer uma apresentação de balé tendo como música de fundo “Canto das três raças”, de Paulo Cezar Pinheiro e Mauro Duarte, na interpretação de Clara Nunes. Por sua vez, os participantes da UEPB apresentaram as contribuições dos povos africanos para cultura brasileira em várias manifestações como a dança, a música, a literatura, a religião. Foram feitas exposições de temas das recém monografias defendidas no Curso de Especialização em História e Cultura Brasileira da UEPB. O próximo desafio que nos advêm refere-se no modo de consolidar essa parceria entre universidade e as escolas do Ensino Médio, tornando mais coeso o entrelace que apenas começamos.
Escrito por jomarricardo às 17h33
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A vilência contra os moradores de rua
Hoje no Jornal do SBT assisti a reportagens da Guarda Civil de São Paulo agredindo um morador de rua. Como soberano que eu sou, na acepção de Jean jacques Rosseau - por que pertenço ao povo, e acrescento, povo eleitor, vontade geral, proprietário do poder que despoticamente se aliena dos representados na Câmera e no Senado - portanto coletivamente dono de mandatos dos cargos eletivos, através do processo de representatividade eleitoral, externo minha indignação contra esses atos de perversidade. Não vejo essa atitude como despreparo de guardas, mas de agentes imbuídos de uma ideologia facista que objetiva, e que se espalha pela sociedade, perpetrando a partir do mais alto cargo público administrativo do estado e da cidade, denominados São Paulo, diga-se, governador e prefeito, vergonhem-se, personificados na figura de dois fantoches da elite brasileira, uma onda de demonização dos pobres. Estes são sinicamente autoridades que instigam esses comportamentos na surdina, transmitidos aos seus subordinados, mas que diante da população e das câmeras, protestam em nome das liberdades individuais burguesas, conforme a fala do corregedor que diz o óbvio afirmando a inadimissibilidade do fato. O contrário se vê no caso dos protestos dos alunos universitários. Vejam as declarações do governador sobre a repressão policial sobre os estudantes ocupantes da Universidade de São Paulo. Para ele, os alunos deveriam obedecer as leis, são indisciplinados. Pergunto, quem as criou? os mendigos? os estudantes? Não, foram criadas pelos representantes da burguesia para sustetar a própria ordem injusta. Pergunto, quem defende os mendigos? o policial? o corregedor? o prefeito? o governador? Respondo, não. Não seria coerente criar um código de leis para descumpri-lo na prática e atentar contra a ordem pela qual foi criado. Lembro-me do título do livro de Gustavo Gustiérrez, "Onde dormirão os pobres?", inclusive também título de um debate ocorrido na Diocese de Campina Grande, organizado pela Escola de Fé e Política em 2010, em que debateram o assunto o Professor Geraldo Medeiros (UEPB) e Pe. Luiz Couto. Parece-me que nessa questãoa questão relativa a pobreza no Brasil, , o poder executivo do presidente na pessoa de Lula e da presidenta Dilma Roussef está mais interessado na resolução do problema do que o próprio congresso, eivado de clientelismo e corporativismo. Acredito que no espaço do congresso nacional, poderia ser discutido seriamente a situação dos pobres que vivem nas ruas sofrendo violência, que em sua maioria e contraditoriamente, elegeram esses deputados e senadores, que são, por sua vez, e em sua maioria, acomodados, pois já receberam suas recompensas e ocupam-se em suas funções em debater os mais importantes problemas da nação. Essa reportagem vai ser mais uma a ferir a sensibilidade e boa fé dos cristãos que as testemunham pela TV ou nas suas vidas reais. Eles já tornaram-nas naturalizadas em seus cotidianos e nem as questionam, enquanto isso o CRISTO vai tendo seu rosto aspergido com borrifadas de pimenta como castigo, por simplesmente está dormindo na rua. O deputado Luiz Couto é um dos deputados que honra aquela casa e faz por merecer a credibilidade dos eleitores se diferenciando pelo compormisso com o povo oprimido. Vejam a cena no endereço abaixo, pois amanhã será apresentada a continuação da reportagem, que mostrará como o CRISTO vem sendo tratado durante a calada da noite na grande São Paulo, quebrada apenas pela violência dos guardas e o grito de dor abafado dos pobres. http://noticias.uol.com.br/ultnot/multi/2011/11/08/04024D1B3772D4912326.jhtm?homens-da-guarda-civil-agridem-moradores-de-rua-em-sao-paulo-04024D1B3772D4912326
Jomar Ricardo / UEPB
Escrito por jomarricardo às 12h28
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A universidade e a “cultura popular”: O martírio dos viventes de Paulo Cavalcante
Jomar Ricardo da Silva – Professor da UEPB Paulo Cavalcante escreveu O Martírio dos Viventes. São suas experiências vividas durante a seca de 1992/1993. Trata de uma narrativa que conta os dilemas de personagens em convívio com a seca. O autor é professor de História formado pela Universidade Estadual da Paraíba. Resolveu escrever um livro, mas não deixou de lado a cultura de onde proveio. Retrata a vida e a desventura de Zé Mocó e sua família com a fala cotidiana. Com isso questionamos as mudanças que a instrução superior pode acarretar na forma de pensar, sentir e agir do egresso de um curso superior em relação a sua realidade. Quais os conhecimentos adquiridos por um viés científico que o levam a rejeitar/reincorporar sua anterior visão de mundo, denominada de senso comum? No caso de Paulo Cavalcante, foi um contexto de penúria e sofrimento de setores sociais que, durante séculos, viveram desassistidos pelos poderes públicos e obrigados a ficarem dependente das favoráveis flutuações climáticas, em uma palavra, da chuva. Nessa perspectiva nos valemos dos elementos contidos na concepção de “cultura popular" que, segundo Roger Chartier, supõe para seu entendimento, situar o espaço de enfrentamentos em que se localizam “as relações que unem dois conjuntos de dispositivos: de um lado, os mecanismos da dominação simbólica, cujo objetivo é tornar aceitáveis, pelos próprios dominados, as representações e os modos de consumo que, precisamente, qualificam (ou antes desqualificam) sua cultura como inferior e ilegítima, e, de outro lado, as lógicas específicas em funcionamento nos usos e nos modos de apropriação do que é imposto.” Na correlação de força entre a cultura de elite e a cultura popular, a distinção passa a ser necessária para a depreciação do que é popular como sendo desprezível, inferior, de mau gosto; e a exaltação do que é erudito como sendo apreciável, nobre e de bom gosto. Essa diferenciação é consequência de lutas sociais que demarcam previamente os espaços e usufrutos dos bens simbólicos. Enquanto práticas culturais objetivam afirmar no embate “sua classificação, sua hierarquização, sua consagração (ou, ao contrário, sua desqualificação).” Por outro lado, Paulo Cavalcante fura o cerco da estratégia social de dominação que impõe a lógica de apropriação e com esforço próprio faz funcioná-la em seu favor, quando escrever e lançar um livro eram quase improváveis. É através da narração dele que se acessa aos códigos de conhecimento, de crença e de práticas utilizadas para sobrevivência em uma ambiente hostil. Peter Burke, ao analisar variedade da cultura popular camponesa do século XIX na Europa, testifica essas diferenças de habitat: “Se a cultura surge de todo modo de vida, é de se esperar que a cultura camponesa varie segundo diferenças ecológicas, além das sociais; diferenças no ambiente físico implicam diferenças na cultura material e estimulam também diferentes atitudes”. As características físicas da região determinam em sua variedade, uma produção de formas de pensar e lidar com a realidade em volta dos indivíduos. Essa pode ser exemplificada com o contexto de Zé Mocó que vivia numa “economia baseada quase exclusivamente em técnicas primitivas do mato e uma agricultura tradicional.” (p.77). Tal afirmação é proveniente do conhecimento universitário de orientação estruturalista, em que as bases da formação social estão assentadas em modelo teórico, em que os fatores econômicos adquirem dinamismo através das contradições entre as forças produtivas e relações sociais de produção. Esta última vem por meio da ascensão social do protagonista, que depois de muito esforço e anos de trabalho, adquire seu quinhão de terra. Todavia, em vez de alcançar a sua liberdade como pequeno proprietário, sua condição o põe na condição de trabalhador livre, ao ser explorado pelo latifundiário em sua força de trabalho e de sua família, na construção de cercas nas propriedades alheias. Por sua vez o espaço de reprodução, situado na superestrutura, é ocupado pela religião católica, que através do padre, em um sermão, numa missa de Natal, realiza a função de apaziguador das tensões latentes entre opressores e oprimidos: “Mostrando o menino Jesus na manjedoura, nascido em uma região tão seca e sofrida quanto aquela, tentava convencer aquele povo de que o sofrimento às vezes, era normal e até necessário para disciplinar o corpo e purificar a alma.” As relações políticas ocupam outra dimensão da mesma realidade de dominação em que a subjugação dos dominados faz-se pela utilização do voto, por parte dos necessitados e de sua compra pelos políticos: “tirado o título de eleitor e votado nas últimas eleições, era um excluído, parecia um ser inexistente” (p.83). O livro à medida que descreve situações de morte, emigração e fome, em razão do conhecimento fomentado em bancos universitários, sugere o nível de consciência do autor. Paulo Cavalcante, por diversas oportunidades, reporta-se ao termo exclusão para designar a opressão social vivida pela família que se retirou para a cidade: “tendo como companheiros cães, ratos e urubus animais que como eles eram indesejados, discriminados e excluídos” (p.81). Somos conhecedores da exclusão com a própria vida, mas a escola, instituição reprodutora de uma ordem dominante, concedendo-nos a ilusão de ascensão social, ao emitir o diploma de curso superior, termina sendo mais um fator de exclusão. Na reflexão de Pierre Bourdieu: “Como sempre, a escola exclui; mas a partir de agora, exclui de maneira contínua, em todos os níveis [...] e mantém em seu seio aqueles que exclui, contentando-se em relegá-los para os ramos mais ou menos desvalorizados.” A universidade brasileira exclui através da diferenciação de cursos. O destino do candidato foi previamente imposto pelas suas condições socioeconômicas; se estudou em escola pública, terá enormes dificuldades de concorrer com outros que frequentaram escolas de ensino fundamental e médio privadas. Seu ambiente familiar não o proveu de condições culturais para assimilar conteúdos cognitivos exigidos nos processos de aprendizagem dentro dos padrões que a escola exige. Durante o período escolar, o indivíduo vai apenas certificar-se de seus limites e desse modo a escola cumpre a função de legitimadora das desigualdades sociais, em que o aluno pobre vai atribuir a si mesmo a responsabilidade de fracasso escolar. Se chegamos a reconhecer elementos da cultura universitária no livro Martírio dos viventes, percebemos que outros valores não foram introjetados, talvez pelo fato do referido autor, ao adentrar a universidade não era seu portador. Falamos de uma vontade de poder expressa por nossos alunos e acentuada em nossos mestres, em comportamentos de arrogância, competitividade e orgulho. Essas atitudes são meios de oprimir que começam em surdina, penetram as estruturas através de normas e vão ao encontro das máquinas do desejo, na expressão de Felix Guattari. Para ele, a “química totalitária trabalha as estruturas do Estado, as estruturas políticas e sindicais, as estruturas institucionais e familiais, e até as estruturas individuais, na mesma medida em que se pode falar, como o evocamos antes, numa espécie de fascismo do superego na culpabilidade e na neurose”. Por isso, o livro de Paulo Cavalcante deve ser recepcionado com louvores por representar a relação política ente cultura popular e universidade imune às transversalidades sociais de poder fascista. É mais oportuno por trazer uma realidade que a maioria das pessoas conhece apenas pelas notícias de jornais e imagens da televisão. Também importante por estarmos num momento em que se agudiza a luta pela imposição dos interesses de classe no País e quando, nesses últimos anos, o governo tem patrocinado as manifestações populares com uma política de resgate e valorização da cultura subalterna.
Escrito por jomarricardo às 10h09
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Sivuca pensador e poeta
A Paulo Cavalcante Autor de O Martírio dos viventes
A música Cabelo de milho (1980) de Sivuca e Paulinho Tabajós traz a percepção dialética dos fenômenos em sua composição, cuja letra consideramos um poema que expressa a situação do homem diante da realidade. Dizia Mario Quintana: “Ser poeta não é uma maneira de escrever. É uma maneira de ser”. E a essa maneira de ser e perceber o mundo em sua volta que acrecentamos ao músico de Itabaiana uma verve filosófica. Para o pensador italiano Antonio Gramsci as manifestações culturais trazem uma filosofia espontânea e afirmava que “deve-se destruir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia seja algo muito difícil [...] e atividade intelectual própria de uma determinada categoria [...] de filósofos profissionais e sistemáticos”. Logo, concluiria “que todos os homens são ‘filósofos’”. A canção começa com a constação da existência de água no coco e o secura do riacho: “Tanta água no coco e o riacho tão seco e só / o cansaço na rede e uma sede de se estranhar”. Numa incursão pelo método hegeliano, a apreensão da realidade pela consciência inicia-se pela essência, enquanto negação do ser, que em virtude disso deixa-se aparecer. A imediatidade das coisas gera a inquietação da consciência que busca além da certeza sensível, e inconformada remete os elementos ao entendimento que se faz conhecimento pela força do conceito. Coco cheio, riacho vazio, a rede em que se descansa apanha o cansaço e torna-se prescindível quando o cansaço cessa. Cansaço/descanso, ser e nada se negam mutuamente, em que um fator traz a negação do outro. A sede, impulso de caráter instintivo, deixa a órbita da naturalidade e, ao se estranhar o que é natural, passa-se a concebê-la no campo da representação e, portanto, na cultura. Em busca de sua auto-afirmação a consciência percorre o caminho também da religião: “Um olhar pra parede e uma prece pro céu chorar”. O olhar pra parede é uma deparação com o vazio do próprio ser, que não é um nada, mas nada do ser. Um nada de conteúdo, determinado. Para Hegel, “tudo que tem realidade é um momento do Absoluto” e este Absoluto possui sua identidade indeterminada e não pode ser concebido, mas apenas sentido. Longe dos tratados teológicos, as pessoas humildes expressam a fé pelo sentimento arraigado e indefectível, sem precisar de nenhuma argumentação razoável de prova da existência de Deus. No verso “Se pudesse o céu chover só a metade do que chove no meu coração / Dava um lago pra beber e o chão virava neve de tanto algodão”. A chuva que cairia invocada pela prece saciaria a sede estranha e resultaria em produção de algodão. Isso porque tanto na intuição de Sivuca e quanto na elucubração de Hegel, o espaço começa com o quantitativo. Expressões tais como “metade do que chove” e “lago pra beber”, indicam que a natureza surge pela quantidade e desse modo, pontua uma parte do todo do coração. O “lago”, na condição de recipiente, apanharia uma porção limitada da precipitação pluviométrica indefinida. Afirmava Hegel que o Espaço “é em geral pura quantidade, não mais apenas esta [quantidade] como determinação lógica, mas como sendo imediata e exterior”. Todavia, considerado a possibilidade da intuição, o espaço abstraído do tempo é quantitativo, e na sua relação com o tempo, percebe-se nele brotar elementos qualitativos, pois ele não pode ser totalmente abstrato, contínuo e geométrico, mas um espaço físico e repleto. Então Sivuca revela uma concepção de espaço dialético entre o abstrato e o concreto, entre a Ideia absoluta e o particular, entre o qualitativo e o quantitativo, quando asserta no final do verso que o chão “virava neve de tanto algodão”. O poeta de Itabaiana acende de forma lírica a fogueira de discussão travada na história da filosofia entre metafísicos e físicos, em que os primeiros defendem o espaço relativo, entendido como uma consequência das coisas espaciais que lhe dariam sustentação. Diria Hegel, a partir de Leibniz, “que o espaço é uma ordem das coisas, a qual em nada atinge os números, e que ele tem suporte nas coisas [...].” Enquanto os segundos defendem o espaço absoluto porque este precede as coisas e seria condição de sua existência. Ou na afirmação de Hegel “caso se diga que ele é algo substancial por si, então deve ser como uma caixa, que, mesmo com nada dentro, se conserva contudo como algo particular por si”. Assim na canção, o chão representa o absoluto que pode se perder de vista na divisa do horizonte, mas adquire dimensão relativa da percepção do algodão que o preenche o espaço vazio do espaço geométrico, tornando-o físico. O quantitativo tornou-se qualitativo através de um processo natural “Via o trapiá crescer” e do processo do trabalho “o gosto de rever moringa na janela / tanto milho pra colher de nunca mais se ver o fundo da panela”. Os homens produzem cultura em suas relações com a natureza e com outros homens. Enquanto a natureza age silenciosamente pelo crescimento do fruto, o homem trabalha fazendo cultura na manufatura da moringa para reserva d’água. O cabelo de milho que reluz com o brilho da luz do sol, passou por fases de transformação até chegar a sua fase de maturação, chegando ao ponto de ser colhido. Ao encher o espaço da panela vazia, tem-se o fim da tensão criada pela escassez e sua superação estaria na opulência, resolvida na satisfação das necessidades de sobrevivência. Oportuno se faz mencionar Paulo Freire que identificou a precedência da leitura do mundo à leitura da palavra. Para o educador nordestino o signo - “a palavra”, “a letra”, “o texto” – estaria impregnado nas cores da natureza que se modificam à medida que seus frutos, a exemplo da manga, amadurecem. O poeta dizia: “o verde da manga espada verde, o verde da manga espada inchada; o amarelo esverdeado da mesma manga amadurecendo, as pintas negras da manga mais além de madura. A relação entre essas cores, o desenvolvimento do fruto, a resistência à nossa manipulação e seu gosto. Foi nesse tempo, possivelmente, que eu, fazendo e vendo fazer, aprendi a significação da ação amolegar.” Aprendemos desse modo com o educador que se aprende observando o movimento da natureza, que não nos permite ver o processo, muito lento por sinal, mas apenas seu resultado de amadurecer através das cores que indicam a mudança. Primeiro veio a constatação, depois uma leitura do aprimoramento do fruto e, por fim, um conhecimento conceitual de “amolegar”. Hegel, conhecido pelo estilo intrincado, escreveu a metáfora da flor em agradável linguagem poética: “O botão desaparece no desabrochar da flor, e poderia dizer-se que a flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer um falso ser-aí da planta, pondo-se como sua verdade em lugar da flor: essas formas não só se distinguem, mas também se repelem como incompatíveis entre si. Porém, ao mesmo tempo, sua natureza fluida faz delas momentos da unidade orgânica, na qual, longe de se contradizerem, todos são igualmente necessários.” Na figura apresentada, o botão, a flor, o fruto são momentos de ultrapassagem contínua. Apesar de haver negação das várias partes constitutivas, numa mesma relação de superação sucessiva das fases, o fruto encontrava-se em potência no botão, que foi suprimido pela flor e da qual se fez nascer o fruto, numa ordem natural das coisas. Cada um a seu modo, nas especificidades de seus ganha-pão, Sivuca com a música, Hegel e Paulo Freire com a filosofia, demonstram a concepção de Mario Quintana que ser poeta é uma maneira de sentir a vida. Os pensadores profissionais mencionados, sem perder a rigorosidade do método de perscrutar a realidade, expressaram essa condição ao analisar de forma lírica, a dialética incrustada na própria vida. Por sua vez, Sivuca e Paulinho Tabajós se filiaram ao postulado de Antonio Gramsci de que “todos são filósofos”, ao trazerem ao som de uma linda poesia as contradições inerentes a natureza. Trouxeram o saber pensado para a harmonia de acordes que enriquecem a razão e a sensibilidade.
Escrito por jomarricardo às 22h18
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Chico César e a indústria cultural
Chico César e a indústria cultural Jomar Ricardo da Silva – Professor da Universidade Estadual da Paraíba. A respeito da polêmica que se estabeleceu na mídia sobre a declaração do Secretário de Cultura do estado da Paraíba, Chico César, em não patrocinar “grupos musicais e artistas cujos estilos nada têm a ver com a herança da tradição musical nordestina, cujo ápice se dá no período junino”, penso que essa medida está condizente com a trajetória que está tomando o financiamento das políticas públicas no Brasil desde a 1ª Conferência Nacional de Cultura 2005/2006. Foi taxativa a colocação de Antonio Crassi, presidente da FUNARTE (Fundação Nacional de Arte), na sua exposição da mesa-redonda, eixo temático, Economia da Cultura, nessa conferência, que afirmava em relação ao financiamento: “Se o recurso é escasso, umas das necessidades óbvias é usá-lo corretamente”. É recente a iniciativa governamental com intuito de planejar e executar uma política pública, tendo como ponto de partida a discussão envolvendo setores da sociedade que promovem a cultura. Compreende-se de antemão, que em razão dessa tardia, mas inadiável e oportuna organização, o financiamento também seja de pequeno vulto. Em conseqüência, deve-se, na qualidade de gestor público, ter prioridades quando os recursos disponíveis são pequenos e as escolhas, necessariamente, devem recair sobre determinados valores culturais. Uma consciência crítica tende a discernir entre um produto da indústria cultural e uma atração musical que represente uma arte de raízes populares. Uma das diretrizes que a Conferência Estadual da Paraíba (2005/2006) trouxe para servir de base para a implementação de política cultural, foi a “valorização da Cultura Popular” e o “despertar, no cidadão, a consciência de valorização dos bens culturais”. Logo, a participação de grupos artísticos populares que fizeram parte dos debates no estado, obriga o gestor público a não ser neutro politicamente e que, desse modo, os atos por ele engendrados sejam posicionamentos diante das relações de forças que trazem em si um matiz étnico, de classe e de gênero. Essa polêmica, em si mesma, aponta para umas das causas dessa celeuma, pois ela resulta dos estertores de interesses contrariados, pois os manipuladores da consciência popular têm objetivos ideológicos e econômicos a serem alcançados com a espúria produção. Não poderia ser mais cabível a expressão “forró de plástico” para designar os produtos de bens musicais de baixa qualidade. O termo plástico remete para o efêmero próprio da musicalidade dessas bandas. Quanto ao estilo e conteúdo são de apelos simplórios que não denota nenhuma preparação intelectual para apreciar. Na verdade não podem ser considerados como arte, são produtos de negócios que exploram os espaços de entretenimentos das massas urbanas e rurais, portanto, Adorno os classificou em suas fases de elaboração da indústria cultural: “em todos os seus setores são fabricados de modo mais ou menos planejados, produtos talhados para o consumo de massas e este consumo é determinado em grande medida por estes próprios produtores.” E chega a perguntar em trabalho de 1938: a quem serve essa diversão? Para em seguida responder, “ao invés de entreter, parece que tal música contribui ainda mais para o emudecimento dos homens, para a morte da linguagem como expressão, para a incapacidade de comunicação. A música de entretenimento preenche os vazios do silêncio que se instalam entre as pessoas deformadas pelo medo, pelo cansaço e pela docilidade de escravos sem exigências.” A música de entretenimento estava surgindo na época da popularização do rádio e consistia aqui no Brasil, em algo semelhante aos “Cantores do Radio” de MPB (Música Popular Brasileira) da Radio Nacional. Essa música também denominada de ligeira, em contraposição à música clássica ou séria, também Adorno a chamou de lixo. Não consigo imaginar que expressão ele usaria para nomear o “forró de plástico.” Por isso, pode se dizer, que o Secretário de Cultura abusou do eufemismo. Essa sistematização que tenta conciliar aspectos da arte popular com elementos estereotipados da vida social, tem propósito definido, ao se dispor a técnica desenvolvida ao longo do processo histórico, para uma estratégia de dominação social. Mas, segundo Adorno “O que não se diz é que o terreno no qual a técnica conquista seu poder sobre a sociedade é o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade. A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o carácter compulsivo da sociedade alienada de si mesma.” Parte-se do próprio pressuposto que os economicamente fortes, a classe burguesa, estão alienados em seu próprio enredear de racionalidade técnica e intentam, com êxito, impor seus ditames sobre todo o contexto ilimitado, derribando todas as resistências. Com compromisso exclusivamente na obtenção da lucratividade, cria-se um padrão de bens culturais para serem assimilados de formas idênticas por todas as pessoas que presumidamente teriam as mesmas necessidades. Daí constitui o ludíbrio de que suas produções correspondem às exigências dos consumidores explicadas pelo “círculo da manipulação e da necessidade retroativa”. No indivíduo, essa assimilação, em razão da supressão da relação todo-partes na confecção da obra de arte, efetiva-se pela subtração do esquematismo do entendimento, uma apropriação do pensamento kantiano, feita pelos autores da Escola de Frankfurt, consistindo na imposição, pela indústria cultural, de consumo pronto, acabado, sem permitir o diálogo entre as intenções presumíveis do artista e capacidade de articulação das formas a priori oferecidas pela sensibilidade e pelo entendimento do apreciador. Desse modo, o produto feito em série para atender falsamente a necessidade do consumidor, previamente em sua fabricação, retirou-lhe sua capacidade livre de usufruto. No caso das bandas de forró eletrônico, ele sente o batido dos instrumentos e a grunhidela do vocalista, mas não consegue relacionar o que os sentidos captam atordoadamente e o que o entendimento espera, e não consegue captar, dispensando o mínimo de trabalho à razão, onde se efetiva o processo de conhecimento propriamente dito. Dar-se, então o aniquilamento e emudecimento do sujeito a que se reportava Adorno anteriormente, pois essa falsa arte não permite que ele julgue e pense. A educação é uma ação que a sociedade exerce sobre o indivíduo para dotá-lo de valores e hábitos, conforme os interesses dos grupos hegemônicos, através das instituições, formando desse modo sua subjetividade. Logo, educa-se coletivamente em todos os lugares onde se esteja. A música é uma das maneiras artísticas de conduzir as pessoas para uma transformação de si, no âmbito do significado conceitual de educação, de retirá-las de um patamar do “ser genérico” e alçá-las para outro mais elevado, enquanto representante do gênero a que se filia. Ao contrário da tragédia grega que, pela catarse, levava o cidadão a uma purificação, a indústria cultural impossibilita a experiência de sofrimento, por “muito longe de simplesmente encobrir o sofrimento sob o véu de uma camaradagem improvisada, a indústria cultural põe toda a honra da firma em encará-lo virilmente nos olhos e admiti-lo com uma fleuma difícil de manter.” Talvez se possa, a partir disso, refletir sobre a apatia de nossos jovens em relação à sociedade e a política, uma indiferença aos problemas que a humanidade atravessa. Talvez o marasmo seja sintoma de um constante evitar as frustrações e o sofrimento. Ver-se em demasia, a recorrência às drogas para atenuar a dor que se sente, mas que não se entende. Esse desconhecimento, essa falta de sublimação, torna-a mais forte, mais pungente e insuportável. Em outras palavras, os autores da Teoria Crítica reafirmaram o retrocesso que indústria cultural acarreta sobre os indivíduos: “O efeito global da indústria cultural é o de um anti-iluminismo; nela o iluminismo (Aufklärung), como Horkheimer e eu tomamos o progressivo domínio técnico da natureza, torna-se engano das massas, meio para sujeitar as consciências. Impede a formação dos indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e se decidir conscientemente. Pois bem, estes seriam os pressupostos de uma sociedade democrática que somente indivíduos emancipados podem manter e desenvolver.” A indústria cultural tende em se transformar, segundo Adorno e Horkheimer, no profeta do existente, em que apenas se poderia “participar ou omitir”. São reconhecidos os motivos de tal pessimismo, todavia, Chico César demonstra, como Secretário de estado da Paraíba, que a sociedade pode construir espaços de resistência.
Escrito por jomarricardo às 18h11
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É preciso sonhar - José Comblin
O texto abaixo é a transcrição da conferência proferida na Universidade Centro-Americana em San Salvador, em 14/11/2010 "Boa tarde a todas e todos. Não é a primeira vez que falo neste lugar, mas agradeço muito a amizade de Jon Sobrino. Nós nos conhecemos há muito tempo e eu o estimo como uma das cabeças mais lúcidas deste tempo que renovou completamente a Cristologia. Bom... As perguntas de ontem me deram a impressão de que em muitas pessoas há certo desconcerto em relação à situação atual da Igreja. Ou seja, uma sensação de insegurança. Como dizia Santa Teresa, por "não saber nada a respeito, que nada provoque temor". Quando era jovem eu conheci algo semelhante e, talvez, pior. Era o pontificado de Pio XII. Ele havia condenado todos os teólogos importantes, havia condenado todos os movimentos sociais importantes, por exemplo, a experiência dos padres operários na França, Bélgica e outros países. Aí nós, jovens seminaristas e depois jovens sacerdotes, estávamos mais que desconcertados, perguntando-nos: mas, ainda há futuro? Eu me lembro que naquela época tinha lido uma biografia de um autor austríaco do papa Pio XII. E aí contava algumas palavras que havia escrito o Pe. Liber, jesuíta, professor de História da Igreja na Gregoriana. O Pe. Liber era confessor do Papa. Sabia tudo o que passava na cabeça de Pio XII e então dizia: "Hoje a situação da Igreja católica é igual a um castelo medieval, cercado de água, levantaram a ponte e jogaram as chaves na água. Já não há como sair (risos). Ou seja, a Igreja está cortada do mundo, não tem mais nenhuma possibilidade de entrar". Isso foi dito pelo confessor do Papa, que tinha motivos para saber essas coisas. Depois disso veio João XXIII e aí, todos os que haviam sido perseguidos, de repente são as luzes no Concílio e de repente todas as proibições são levantadas. Aí renasceu a esperança. Digo isto para que não se perturbem. Algo virá. Algo virá que não se sabe o que, mas algo sempre acontece.
Como explicar essas situações que ainda podem recomeçar? Porque estamos nos aproximando da fase final da cristandade. Já faz muitos séculos que anunciaram a morte da cristandade... que está agonizando já faz cerca de 200 anos, mas ainda pode continuar sua agonia durante algumas décadas ou alguns anos. Ou seja, deixou de ser a consciência do mundo ocidental. Deixou de ser a força que anima, estimula, esclarece, explica a fonte da cultura, da economia, de tudo o que foi durante o tempo da cristandade. Tudo isso foi sendo destruído progressivamente desde a Revolução Francesa e aqui desde a independência, desde a separação do império espanhol. Então, pouco a pouco, apareceram muitos profetas que disseram que a cristandade morreu... já faz 200 anos. Mas agora creio que a cristandade está entrando em suas fases finais. Querem um sinal? A Encíclica Caritas et Veritate. Não sei quantas pessoas aqui leram a Encíclica. Se se vê a repercussão que teve no mundo: impressionante silêncio... Talvez silêncio respeitoso, mas mais provavelmente silêncio de indiferença. A doutrina social da Igreja não importa mais a ninguém, que também deixou de se interessar pelo que acontece na realidade concreta. Há alguns anos, um sociólogo jesuíta muito importante, o Pe. Calvez, que teve um papel importantíssimo na criação e manutenção da Doutrina Social da Igreja, publicou um livro intitulado: "Os silêncios da Doutrina Social da Igreja". Ainda está em silêncio. Deixa de entrar com força nos problemas do mundo atual. Fica com teorias tão vagas, tão abstratas, tão genéricas... A carta Caritas in Veritate poderia ser assinada pelo Fundo Monetário Internacional (risos), pelo Banco Mundial... sem nenhum problema. Não há absolutamente nada que incomode esse pessoal. Então, para quê? Esse é o sinal. Querem outro sinal? A Conferência de Aparecida disse muitíssimas coisas boas. Quer transformar a Igreja em uma missão, passar de uma Igreja de "conservação" a uma Igreja de "missão". Só que pensa que isso será feito pelas mesmas instituições que não são de missão, mas de conservação. Isso será feito pelas dioceses, pela paróquia, pelos seminários, pelas Congregações Religiosas. Estes aqui, de repente e por milagre, vão se transformar em missionários. Já se passaram três anos e o que aconteceu em sua diocese? Como se aplicou a opção pelos pobres? Não sei como é aqui, mas no Brasil não vejo muita transformação. Ou seja, a cristandade está se dissolvendo progressivamente, mas o problema é o depois. O que vem depois? Como? Daí a insegurança porque não sabemos o que vem depois. Isto aconteceu muitas vezes na história e ainda vai acontecer provavelmente muitas vezes. É preciso aprender a resistir, a suportar, a não se deixar desanimar ou perder a esperança pelo que vem acontecendo. O que acontece é que em Roma não estão convencidos de que a cristandade está morta. Acreditam que as Encíclicas iluminam o mundo, que as instituições eclesiásticas iluminam e conduzem o mundo. Ou seja, é um mundo fechado, que de fato vive em um castelo medieval, cercado de água. E então, o que acontece? Vamos ver como interpretar, como ver o que está acontecendo. E então ver qual é o "método teológico" que convém para isso.
Escrito por jomarricardo às 23h03
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O Evangelho vem de Jesus Cristo. A religião não vem de Jesus Cristo É preciso partir de uma distinção básica que agora vários teólogos já propuseram entre o Evangelho e a religião. O Evangelho vem de Jesus Cristo. A religião não vem de Jesus Cristo. O Evangelho não é religioso. Jesus não fundou nenhuma religião. Não fundou ritos, não ensinou doutrinas, não organizou um sistema de governo. Nada disso. Ele se dedicou a anunciar, a promover o Reino de Deus. Ou seja, uma mudança radical de toda a humanidade em todos os seus aspectos. Uma mudança, e uma mudança cujos autores serão os pobres. Dirige-se aos pobres pensando que somente eles são capazes de agir com essa sinceridade, com essa autenticidade para promover um mundo novo. Seria essa uma mensagem política? Não é política no sentido de que propõe um plano, uma maneira... não, para isso a inteligência humana é suficiente; mas como meta política, porque isto é uma orientação dada a toda a humanidade. E a religião? Aah! Jesus não fundou uma religião, mas seus discípulos criaram uma religião a partir dEle. Por quê? Porque a religião é algo indispensável aos seres humanos. Não se pode viver sem religião. Se a religião atual aqui se desintegra... Há 38.000 religiões registradas nos Estados Unidos! Ou seja, não faltam religiões, elas aparecem constantemente. O ser humano não pode viver sem religião, mesmo que se afaste das grandes religiões tradicionais. Então, a religião é uma criação humana. Entre a religião cristã e as demais religiões, a estrutura é igual. É uma mitologia. Assim como há uma mitologia cristã, há uma mitologia hinduísta, xintoísta, confucionista. Isso é parte indispensável para a humanidade. Ou seja, como interpretar todo o incompreensível da humanidade pela intervenção de seres com entidades sobrenaturais, fora deste mundo, que estão dirigindo esta realidade. Em segundo lugar, uma religião é feita de ritos. Ritos para afastar as ameaças e para acercar-se dos benefícios. Todas as religiões têm ritos. E todas têm pessoas separadas, preparadas, para administrar os ritos, para ensinar a mitologia. Isto é comum a todas. Então, isto devia acontecer com os cristãos também. Devia acontecer. Como poderiam viver sem religião? Como começou essa religião? Deve ter começado quando Jesus se transformou em objeto de culto. O que aconteceu bastante cedo, sobretudo entre os discípulos que não o conheceram, que não haviam vivido com ele, que não haviam estado próximos dele. Então, a geração seguinte ou aqueles que viviam mais distantes, mais afastados, para eles Jesus se transformou em objeto de culto. Com isso se desumanizou progressivamente. O culto de Jesus vai substituindo o seguimento de Jesus. Jesus nunca havia pedido aos discípulos um ato de culto. Nunca havia pedido que lhe oferecessem um rito... nunca. Mas queria o seguimento, seu seguimento. Essa dualidade começa a aparecer cedo. 30 anos, 40 anos depois da morte de Jesus, já aparece com força suficiente para que Marcos escrevesse em seu Evangelho precisamente para protestar contra essas tendências de desumanização, ou seja, de fazer de Jesus um objeto de culto. Este Evangelho é precisamente para recordar uma palavra de profeta: Não! Jesus era isso. Jesus fez isso, viveu aqui neste mundo! Viveu aqui nesta terra. Com o desenvolvimento da religião cristã que se fez - aqui problema para os teólogos -, progressivamente essa tentação reapareceu. Nasceu um começo de doutrina, o Símbolo dos Apóstolos. E o que diz o Símbolo dos Apóstolos sobre Jesus? Aah... diz que nasceu e morreu. Nada mais. Como se as outras coisas não tivessem importância, como se a revelação de Deus não fosse justamente a própria vida de Jesus, seus atos, seus projetos, todo o seu destino terrestre. Essa é a revelação, mas isso já vai se perdendo de vista. Os Símbolos de Niceia e Constantinopla, da mesma maneira: Cristo nasceu e morreu. O Concílio de Calcedônia define que Jesus tem uma natureza divina e uma natureza humana. Mas, o que é uma natureza? Um ser humano não é uma natureza. Um ser humano é uma vida, é um projeto, é um desafio, é uma luta, é uma convivência em meio a muitos outros. Isso é o fundamental se queremos fazer o seguimento de Jesus. A religião: distinção entre o sagrado e o profano Progressivamente, aparece a partir dos primeiros Concílios um distanciamento entre a religião que se forma. Com Niceia e Constantinopla já há um núcleo de ensinamento e de teologia e a Igreja vai se dedicar a defender, promover, aumentar essa teologia. Já se organizaram as grandes liturgias de Basílio e outros, e já se organizou um clero. O clero como classe separada é uma invenção de Constantino. Até Constantino não havia distinção entre pessoas sagradas e pessoas profanas. Eram todos leigos. Porque Jesus apartou a classe sacerdotal e não tinha previsto nenhuma maneira que aparecesse outra classe sacerdotal, porque todos são iguais. E não há pessoas sagradas e pessoas não sagradas, porque para Jesus não há diferença entre sagrado e profano. Tudo é sagrado ou tudo é profano. Agora, na religião há uma distinção básica entre sagrado e profano. Em todas as religiões. E há um clero que se dedica ao que é sagrado. E os outros que estão no profano, na religião são receptores, não são atores. Não têm nenhum papel ativo. Para ter um papel ativo é preciso ser realmente consagrado. Isso começa no tempo de Constantino. E a partir daquilo vão aparecer duas linhas na história cristã. Os que, como o Evangelho de Marcos quer recordar: Não, Jesus veio para mostrar o caminho, para que o sigamos. Isso é o básico, o fundamental. Uma linha que vai renovar, aplicar em diversas épocas históricas o que foi a vida de Jesus e como ele o ensinou. E em toda a história podemos seguir. Claro que não sabemos tudo, porque a grande maioria dos que seguiu o caminho de Jesus foram pobres, dos quais nunca se falou nos livros de história e, portanto, não deixaram nenhum documento. Mas há pessoas que deixaram documentos e com isso podemos acompanhar onde, na história da Igreja cristã, aparece o Evangelho. Onde se buscou primeiramente a vivência do Evangelho. Os que buscaram radicalmente o caminho do Evangelho foram sempre minorias, como dizia Helder Câmara, "minorias abraãmicas". A maioria está no outro pólo, na religião. Ou seja, dedicando-se à doutrina. Ensinando a doutrina, defendendo a doutrina contra os hereges e as heresias... Essa foi uma das grandes tarefas, praticar os ritos e formar a classe sagrada, a classe sacerdotal. Isso nos leva a uma distinção que vai se manifestar em toda a história. O pólo "Evangelho" está em luta com o pólo "religião" e "religião" com o pólo "Evangelho". Em toda a história. Toda a história cristã é uma contradição permanente e constante entre aqueles que se dedicam à religião e aqueles que se dedicam ao Evangelho. Claro que há intermediários e assim não há pólos totais. Mas na história há visivelmente duas histórias, dois grupos que se manifestam. A história oficial: quando eu era jovem nos davam aulas de História da Igreja que era "história da instituição eclesiástica" e ali só se falava da religião, supondo que a religião era a introdução ao Evangelho. Mas isso é uma suposição: que tudo o que nasceu no sistema católico vem de Jesus, como se dizia na teologia tradicional em tempos da cristandade, que tudo o que existe na Igreja Católica Romana, ao final, vem de Jesus. Com muitos malabarismos teológicos se consegue mostrar que tudo tem finalmente sua raiz em Jesus. Não têm sua raiz em outras religiões, em outras culturas. Como se os cristãos que se convertem à Igreja fossem totalmente puros de toda cultura e toda religião. Todos trazem sua cultura e sua religião, e introduzem em sua vida cristã elementos que são de sua religião e cultura anterior e por isso resulta uma religião que é sempre ambígua, complexa. É inevitável, porque os seres humanos que entram na Igreja não são anjos. Eles estão carregados de séculos e séculos de história e de transmissão cultural e tudo isso entra, naturalmente, na Igreja. Daí uma oposição que em matéria política, por exemplo, se mostra claramente. Se diz: o Evangelho procede de Deus e, portanto, não pode mudar. A religião é criação humana, portanto, pode e deve mudar segundo a evolução da cultura, das condições de vida dos povos em geral. Se a religião fica apegada ao seu passado, ela é pouco a pouco abandonada a favor de outra religião mais adaptada. O que é muito compreensível.
Escrito por jomarricardo às 23h02
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O Evangelho é vivido na vida concreta, material, social. A religião vive em um mundo simbólico. Tudo é simbólico - doutrina, ritos, sacerdotes... -, todos são entidades simbólicas, que não entram na realidade material. O Evangelho é universal, porque não traz nenhuma cultura e não está associado a nenhuma cultura, a nenhuma religião. As religiões estão sempre associadas a uma cultura. Por exemplo, a religião católica atual está ligada à subcultura clerical romana que a modernidade marginalizou, que está em plena decadência porque seus membros não quiseram entrar na cultura moderna. O Evangelho é renúncia ao poder e a todos os poderes que existem na sociedade. A religião busca o poder e o apoio do poder em todas as formas de poder. E são tão visíveis! O poder... Lembro que na época da prisão dos bispos em Riobamba o núncio dizia: "se a Igreja não tem o apoio dos governantes, não pode evangelizar" (risos). Pode-se pensar o contrário: que caso se tenha o apoio dos poderes será difícil evangelizar. Mas essa é uma mentalidade que ainda é remanescente na cristandade entre a Igreja fundida em uma realidade político-religiosa e então naturalmente estavam unidas todas as autoridades: o clero e o governo; o clero e o Exército - tudo unido. Renunciar a isso é muito difícil. Renunciar à associação com o poder é muito difícil. Vou dar um exemplo. Meu atual bispo na Bahia é um franciscano, se chama Luis Flavio Cappio. Ficou famoso no Brasil por duas greves de fome que fez para protestar contra um projeto faraônico do governo, baseado em uma imensa mentira. Não há tempo para contar toda a história, mas se tornou conhecido e foi convidado para o Kirchentag da Igreja alemã. Depois do convite falou em várias cidades da Alemanha. Um grupo se aproximou dizendo que vinham para entregar-lhe uma doação, uma ajuda para as suas obras. E era bastante: cerca de 100 mil dólares. Ele perguntou: "De onde vem esse dinheiro?" Disseram-lhe que são algumas empresas, alguns executivos que o recolheram. Então disse: "Não aceito. Não quero aceitar o dinheiro que foi roubado dos trabalhadores, dos compradores de material". Não aceitou nenhuma aliança com o poder econômico. Eu não sei quantos no clero não aceitariam (aplausos). Esse bispo é um franciscano igual a São Francisco. Toda a sua vida foi assim. Por isso fui morar ali para santificar-me um pouquinho em contato com uma pessoa tão evangélica... Então, como nasceu a Igreja? A Igreja de que se fala: essa realidade histórica, concreta de que temos experiência. Para o povo em geral a Igreja é o Papa, os bispos, os padres, as religiosas, religiosos... esse conjunto institucional de que se fala e que provoca também tanta incerteza, como vimos. Como nasceu a Igreja? Jesus não fundou nenhuma igreja. O próprio Jesus se considerava um judeu. Era o povo de Israel renovado e os primeiros discípulos também; Os doze apóstolos são os patriarcas da Igreja do Israel renovado. A primeira consciência era da continuação de Israel, a perfeição, a correção de Israel. Mas uma vez que o Evangelho penetrou no mundo grego, aí Israel não significava muitas coisas para eles e então Paulo inventa outro nome. Dá às comunidades que funda nas cidades o nome de "ekklesia", o que se traduziu por "igreja". O que é a ekklesia? O único sentido que tem no grego é "a assembleia do povo reunido que governa a cidade". Na prática eram as pessoas mais poderosas, mas enfim é que na cidade grega o povo se governa a si mesmo e o faz em reuniões que são "ecclesias". Paulo não dá nenhum nome religioso às comunidades; os vê como um grupo destinado a ser a animação. A mensagem de transformação de todas as cidades, de tal maneira que estão constituindo o começo de uma humanidade nova. E é uma humanidade onde todos são iguais, todos governam a todos. Depois vem a Carta aos Efésios em que se fala da Igreja como tradução de "kahal" dos judeus, ou seja, é o novo Israel. E a ecclesia é aí também o novo Israel. Ou seja, todos os discípulos de Jesus unidos em muitas comunidades, mas não unidos institucionalmente, mas unidos pela mesma fé. Todos constituem a "ecclesia", a grande Igreja que é o corpo de Cristo. Ainda não existem instituições. Mas, naturalmente, não podia continuar assim. Os judeus que aceitaram o cristianismo não abandonaram todos o judaísmo. E quando o número de cristãos cresceu, o número de comunidades, ali começaram a penetrar algumas estruturas. No tempo de Paulo ainda não há presbíteros, mesmo que São Lucas diga o contrário. Mas São Lucas não tem nenhum valor histórico; isso todo o mundo já sabe. Atribui a Paulo o que se fazia em seu tempo. Então imagina que Paulo fundou presbíteros, conselhos presbiterais. Como se justificaria um bispo sem ordenar sacerdotes? Então, parece evidente um começo de separação ainda muito simples, porque ainda não há sacralidade, não há nada sagrado. Os presbíteros não são sagrados, assim como os presbíteros das sinagogas não eram sagrados. Eles tinham uma função, uma missão de governo, de administração, mas não uma função ritual, ou uma função de ensino de uma doutrina. Depois apareceram os bispos. No final do século II se estima que o esquema episcopal esteja generalizado, mas demorou bastante. Clemente de Roma, quando publica e escreve sua Carta aos Coríntios, diz "presbíteros", o que não é bispo. Ainda em Roma não há bispo, só presbíteros. Mas se organizou o esquema episcopal. É provável que para as lutas contra as heresias, contra o gnosticismo, se necessitasse de uma autoridade mais forte, para poder enfrentar o gnosticismo e todas as novas religiões sincréticas que aparecem naquele tempo. E a Igreja como instituição universal, quando aparece? Houve, no século III, Concílios regionais: bispos de várias cidades que se reuniam. Mas uma entidade para institucionalizar tudo não existia. Quem inventou esta Igreja universal foi o imperador Constantino. Ele reuniu todos os bispos que havia no mundo com viagens pagas por ele, alimentação também paga por ele, e toda a organização do Concílio foi dirigida pelo imperador e os delegados do imperador. Isto constitui um precedente histórico. Até hoje não estamos livres disso: que a Igreja universal como instituição tenha nascido com o imperador. Depois, na história ocidental caiu o imperador romano e então progressivamente o papa conseguiu chegar à função imperial. Houve muitas lutas na Idade Média entre o papa e o imperador, mas sempre o papa se estimava superior ao imperador. Nas cruzadas, o papa era generalíssimo de todos os exércitos cristãos. Era uma personalidade militar - comandante em chefe do exército cristão. E dentro da linha dos Estados pontifícios, isto ainda se mantém. Quando o papa perdeu o poder temporal, reforçou seu poder sobre as Igrejas: e governa as igrejas como um imperador, ou seja, todos os poderes são centralizados em uma única mão e com todas as vantagens de uma corte. Por que se não há nada de democracia na Igreja, quem são aqueles que orientam o papa? A corte! Os cortesãos, os que estão ali próximos. Claro que ele não pode fazer tudo, mas enfim uma corte separada do povo cristão. Ainda estamos sofrendo as consequências daquilo. O Papa Paulo VI disse em alguns momentos que realmente teria que mudar a função atual do Papa, ou seja, o que o Papa faz. João Paulo II na "Unum sint" disse também que é preciso dar-se conta de que o grande obstáculo no mundo de hoje é essa concentração de todos os poderes no Papa. Seria preciso encontrar outra maneira de exercer isso. Isso para dizer que tudo isto pertence à religião. Tarefa da teologia: no Evangelho e na religião A partir disso, qual é a tarefa da teologia? É complexa, justamente porque tem uma tarefa no Evangelho e uma tarefa na religião. A teologia foi durante séculos a ideologia oficial da Igreja. Seu papel era justificar tudo o que a Igreja diz e faz com argumentos bíblicos, com argumentos da tradição, liturgia, e um monte de coisas que eu aprendi quando estava no seminário. Claro que não acreditava nisso (risos), mas a maioria ainda crê nisso. Então, o que acontece?
Escrito por jomarricardo às 23h00
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É preciso sonhar
Primeira tarefa: o que diz o Evangelho? Primeira tarefa: o que diz o Evangelho? O que é de Jesus? O que é penetração do judaísmo, de outra cultura, de outro tipo de religião? O que vem de Jesus segundo o Novo Testamento? Todo o Novo Testamento não vem de Jesus? Não, as Epístolas pastorais que falam, por exemplo, dos presbíteros, isso não vem de Jesus. Então, a tarefa da teologia consistirá em dizer o que é de Jesus, o que realmente quis, o que realmente fez e em que consiste realmente o seguimento de Jesus. Vendo a história, quais foram as manifestações, onde, em formas diferentes - porque as situações culturais eram diferente -, onde podemos reconhecer a continuidade dessa linha Evangélica? Porque se quisermos penetrar no mundo de hoje e apresentar o cristianismo ao mundo de hoje, tudo o que é religioso não interessa. O que pode interessar é justamente o Evangelho e o testemunho evangélico. Ninguém vai se converter pela teologia. Você pode fazer todas as melhores aulas, ninguém vai se fazer cristão por causa da teologia. Por isso, me pergunto: por que nos seminários se crê que a formação sacerdotal é ensinar a teologia? Eu não entendo, não entendo. Não há outra coisa necessária para evangelizar? Não é muito mais complexo? Por isso faz 30 anos que decidi, na presença de Deus, nunca mais trabalhar em seminários (risos). Então, a linha evangélica é essa - São Francisco. São Francisco era um extremista. Não queria que seus irmãos tivessem livros: nada de livros. Com o Evangelho basta, não se necessita nada mais. Ele próprio dizia: "Eu, o que ensino, não aprendi de ninguém, nem do papa; o aprendi de Jesus diretamente, por seu Evangelho". Bom, isso é o que pode convencer o mundo de hoje que está em uma perturbação completa e que se afasta sempre mais das Igrejas institucionais antigas, tradicionais. Quase todas as grandes religiões nasceram entre os anos 1.000 e 500 antes de Cristo, salvo o Islã que apareceu depois, mas que é um ramo da tradição judeu-cristã. O que fazer com a religião? Segundo, a religião. O que fazer com a religião? É preciso examinar em todo o sistema de religião, o que ajuda, o que realmente ajuda a entender, a compreender, a agir segundo o Evangelho. Isso terá nascido por inspiração do Espírito em monges, por exemplo? Se você olha a vida dos monges do deserto no Egito, isso não é uma mensagem. Não é uma mensagem e também não vem do Evangelho. Ou seja, muitas coisas vêm não se sabe de que tradição, talvez pode ter sido do budismo ou outras coisas assim. Então, examinar o que é o que ainda vale hoje, e sinceramente. Jesus não instituiu 7 sacramentos. Até o século XII se discutia se eram 10, 7, 5, 9, 4. Não havia acordo. Finalmente, decidiram que havia 7. Bom, por motivos dos 7 dias do Gênesis, 7 planetas, o número 7... mas há coisas que visivelmente já não falam para as pessoas de hoje. Por exemplo, o sacramento da penitência com confissão a um sacerdote. Quantos se confessam atualmente? Há 20 anos, eu atendia na Semana Santa, em uma paróquia popular, 2.000 confissões, e o pároco outras tantas. Atualmente, 20, 30, ou seja, as pessoas já não respondem mais. Isso foi definido no século XII, XIII. Por que manter algo que já não tem nenhum significado e, ao contrário, provoca muita recusa? Ou seja, que alguém necessite falar com alguém, que o pecador goste de falar com alguém, mas não justamente ao sacerdote. Há muitas pessoas, muitas mulheres, que podem exercer esse ofício muito melhor, com mais equilíbrio, sem atemorizar como fazem os sacerdotes. Isso é uma coisa. Mas há um monte de coisas que é necessário revisar porque não têm futuro. É inútil querer defender ou manter algo que já é obstáculo para a evangelização e que não ajuda absolutamente em nada. Nas liturgias há muitas coisas que mudar. A teoria do sacrifício foi introduzida pelos judeus, naturalmente. No templo se oferece sacrifícios, os sacerdotes são pessoas sagradas que oferecem o sacrifício. Toda essa teoria, atualmente não significa absolutamente nada. Que o padre seja dedicado ao sagrado para oferecer o sacrifício e que a Eucaristia seja um sacrifício, tudo isto vem de Jesus? Ah, não vem de Jesus. Então, é preciso ver se isso vale ou não vale. Para que manter algo que não vale? E depois há também a outra parte: o que não ajuda, o que tem sido infiltração de outras tendências, outras correntes. Por exemplo, a vida ascética dos monges irlandeses. A Irlanda foi a ilha dos monges. Ali os bispos não tinham autoridade. Serviam apenas para ordenar sacerdotes, mas para as outras coisas podiam descansar. Quem mandava eram os monges. Os mosteiros eram os centros, o que é a diocese atualmente. Esses monges irlandeses viviam uma vida ascética, mas tão extraordinariamente desumana para nós que isso é impossível que venha de Jesus, é impossível que isso ajude, porque esses homens ali eram super-homens, mas não existem mais homens assim hoje. Um exercício de penitência que faziam, por exemplo, era entrar no rio - na Irlanda os rios são frios - e ficar nu para rezar todos os salmos (risos)... Essa maneira de entender a vida, não, não devemos considerar que isso seja cristão. Também não é marca de santidade. Não é assim que a santidade se manifesta. Examinar tudo o que vem de lá.
Todas as congregações femininas sabem o quanto é preciso lutar para mudar costumes, tradições que não são evangélicos. Quantos debates! Eu conheço uma série de congregações femininas e quanto tempo se gasta em discussões, disputas entre aquelas que querem conservar tudo e aquelas que querem abandonar o que não serve mais e encontrar outro modo de viver mais adaptado à situação atual! Então, a tarefa da teologia, claro que é mudar, isso muda a tradição, deixa de ser a ideologia de todo o sistema romano, mas essa não tem futuro. Esse tipo de teologia já faz tempo que foi progressivamente abandonado. Na América Latina apareceu algo. Conhecemos um novo franciscanismo, ou seja, uma nova etapa, mas radical, de vida evangélica. Quando nasceu? Falei dos bispos que participaram disso e que animaram Medellín e da opção pelos pobres, dos santos padres da América Latina. E vocês os conhecem. Se for preciso marcar a origem do novo evangelismo da Igreja latino-americana, eu diria - não se esqueçam - dia 16 de novembro de 1965. Nesse dia, em uma catacumba de Roma, 40 bispos, a maioria latino-americanos, incitados por Helder Câmara, se juntaram e assinaram o que se chamou de "Pacto das Catacumbas". Ali se comprometeram a viver pobres, na alimentação. Se comprometeram e, de fato o fizeram depois, uma vez que chegaram às suas dioceses. E depois, priorizar em todas as suas atividades o que é dos pobres, ou seja, deixando muitas coisas para se dedicar prioritariamente aos pobres e uma série de coisas que vão no mesmo sentido. Foram eles que animaram a Conferência de Medellín. Ou seja, nasceu aqui. E tiveram um contexto favorável. O Espírito Santo já naquele tempo havia suscitado uma série de pessoas evangélicas. As Comunidades Eclesiais de Base já tinham nascido. Já havia religiosas inseridas nas comunidades populares. Mas, eram poucos e se sentiam um pouco marginalizados no meio dos outros. Medellín lhes deu como que legitimidade e ao mesmo tempo uma animação muito grande, e se expandiu. Foi toda a Igreja latino-americana? Claro que não. Sempre é uma minoria. Um dia, me lembro, um jornalista perguntou ao cardeal Arns - um santo, com quem vivemos muito boas relações de amizade: "você, senhor cardeal, aqui em São Paulo tem muita sorte, toda a Igreja se fez Igreja dos pobres, as monjas todas a serviço dos pobres, que coisa magnífica!". Aí, Dom Paulo disse: "Sim, pois, aqui em São Paulo 20% das religiosas foram às comunidades pobres; 80% ficaram com os ricos". Era muito. Atualmente, não há 20%. Isto foi uma época de criação, uma dessas épocas em que há, às vezes, na história com uma efusão muito grande do Espírito. Mas temos que viver essa herança. É uma herança que é preciso manter, conservar preciosamente porque isso não vai reaparecer. Às vezes me perguntam: Por que hoje os bispos não são como naquele tempo? Porque aquele tempo foi uma exceção, ou seja, na história da Igreja é exceção. De vez em quando o Espírito Santo manda exceções. E quem vai evangelizar o mundo de hoje? Para mim, são os leigos. E já aparecem muitos grupinhos de jovens que justamente praticam uma vida muito mais pobre, livre de toda organização exterior, vivendo em contato permanente com o mundo dos pobres. Já existem. Haveria mais se se falasse mais, se fossem mais conhecidos. Pode ser uma tarefa também auxiliar da teologia: divulgar o que está realmente acontecendo, onde o Evangelho está sendo vivido neste momento, para dá-lo a conhecer, para que se conheçam mutuamente, porque do contrário podem perder ânimo ou não ter muitas perspectivas. Uma vez que se unam, formem associações, cada qual com sua tendência, seu modo de espiritualidade. Não espero muito do clero. Então é uma situação histórica nova. Mas acontece que os leigos deixaram de ser analfabetos; isso já faz tempo. Eles têm uma formação humana, uma formação cultural, uma formação de sua personalidade que é muito superior ao que se ensina nos seminários. Ou seja, têm mais preparação para agir no mundo, mesmo que não tenham muita teologia. Se poderia dar mais teologia, mas isso é outro assunto. Agora, não vamos pensar que amanhã quem vai colocar em prática o programa de Aparecida serão os sacerdotes. Eu não conheço tudo, mas levando em conta os seminários que eu conheço, as dioceses que eu conheço, seriam necessários 30 anos para formar um clero novo. E quem vai formá-lo? Para os leigos é diferente. Há muitíssimas pessoas dispostas, e pessoas com formação humana, com capacidade de pensar, de refletir, de entrar em relação e contatos, de dirigir grupos, comunidades... Mas muitos ainda não se atrevem, não se atrevem. Mas aí está o futuro.
Para terminar, uma anedota: me chamaram para ir a Fortaleza, no nordeste do Brasil. Atualmente, Fortaleza é uma cidade muito grande - um milhão de habitantes (sic!). A Santa Sé havia afastado, marginalizado o cardeal Aloísio Lorscheider, mandando-o ao exílio em Aparecida, que é um lugar de castigo para os bispos que não agradam. Então, veio um sucessor, Dom Cláudio Hummes, que agora é cardeal em Roma. Cláudio Hummes suprimiu tudo o que havia de social na diocese, despediu todos: 300 pessoas com a longa trajetória de serviço, com capacidade humana. Um dia me chamaram: eram 300, chorando, lamentando: "e agora não podemos fazer nada. E agora, o que vai acontecer?". Eu lhes disse: "mas, vocês são pessoas perfeitamente humanizadas, desenvolvidas, com uma personalidade forte. Tiveram êxito em sua família, tiveram êxito em suas carreiras, em seus trabalhos profissionais. Do que agora se preocupam se o bispo quer ou não quer? Por que se preocupam se o pároco quer ou não quer? Vocês têm formação suficiente e a capacidade. Por que não agem, não formam uma associação, um grupo, de forma independente? Porque o Direito Canônico - o que muitos católicos não sabem - permite a formação de associações independentes do bispo, independentes do pároco. Isso não se ensina muito nas paróquias, mas é justamente algo que é importante. Então, vocês podem muito bem reunir 4, 5 pessoas para organizar um sistema de comunicação, um sistema de espiritualidade, um sistema de organização de presença na vida pública, na vida política, na vida social: 300 pessoas com esse valor. Se paga, tem que pagar a 5, cada um vai gastar nem sequer 2% do que ganha, ou seja, podem muito bem manter 5 pessoas dedicadas a isso. E vão escolhê-los entre 25 e 30 anos porque essa é a época criativa. Até os 25 o ser humano se busca. A partir deste momento termina seus estudos e já conseguiu um trabalho. Então já quer definir sua vida: estes são os que têm capacidade de inventar. Todas as grandes invenções se deram por gente com essa idade". Mas não o fizeram. Por quê? O que acontece? Por que tanta timidez? "Vocês que são tão capazes no mundo, na Igreja nada!" Não se sentiam capazes, necessitavam do bispo que lhes dissesse o que fazer, necessitam de sacerdotes que lhes digam o que fazer. Como é possível? Certamente, não se lhes ensinou. Podem ser adultos na vida civil e crianças na vida religiosa. Mas nós podemos! Nós podemos fazê-lo e multiplicá-lo em todas as regiões que vamos conhecer. Então, o futuro depende de grupos de leigos semelhantes, que já existem mesmo que ainda estejam muito dispersos. O futuro está aí, é tarefa de todos, começando pelos jovens. No Brasil há neste momento seis milhões de estudantes universitários. Dois milhões, são de famílias pobres - são pobres os que ganham menos de três salários mínimos, porque com menos disso não se pode viver decentemente. Dois milhões. E qual é a presença do clero? Pouquíssima. Alguns religiosos. Das dioceses? Nada. E ali está o futuro. São jovens que estão descobrindo o mundo. Claro, há alguns que entram no mundo das drogas, que se corrompem, mas é uma minoria. Ou seja, o conjunto são pessoas que querem fazer algo na vida. Se não conhecem o Evangelho não vão viver como cristãos. É preciso explicar, mas não explicar com cursos de teologia, mas explicar fazendo, participando de atividades que de fato são realmente serviços aos pobres. Isso é possível fazer. Tarefa da teologia. Então será preciso mudar um pouquinho: menos acadêmico, mais orientado para o mundo exterior... com todos os que não estão mais na rede de influxo da Igreja, que não recebem. Mas, presença nisso. E uma teologia que se possa ler, sem ter formação escolástica, porque anteriormente se não se tinha formação aristotélica não se podia entender nada dessa teologia tradicional. Bom, a filosofia aristotélica morreu, ou seja, os filósofos do século XX a enterraram. Agora temos liberdade para ver no mundo como nos abrimos. Obrigado pela atenção de vocês!" Conferência transcrita por Enrique A. Orellanae no dia 14-11-2010. Fonte: http://www.cebi.org.br/noticia.php?secaoId=15¬iciaId=1817
Escrito por jomarricardo às 22h11
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O socialismo de Ricardo Coutinho
Nesse processo eleitoral, em que houve a disputa para o governo do estado da Paraíba, um fato me chamou atenção. Os jornais referiam-se ao governador eleito Ricardo Coutinho com o epíteto de socialista. Obviamente, a imprensa atribui o cognome em razão da filiação partidária (PSB), todavia, os militantes à esquerda, pertencentes ou não a partidos, utilizam a expressão para conferir identidade a um indivíduo a partir de suas concepções ideopolíticas. Partimos do pressuposto, que Ricardo Coutinho, a contar com sua trajetória de sindicalista, aberto ao diálogo com os movimentos populares, possa ser denominado socialista, por ele entender, que na ação política reside a possibilidade de transformação da sociedade. Por isso, façamos uma comparação, guardando as devidas proporções, das propostas de seu governo com a primeira experiência de revolução proletária da história mundial, a Comuna de Paris (1871). Como dizia Karl Marx: “a comuna era, essencialmente, um governo da classe operária”. Ele compreendia que a forma democrática de constituir o poder político, engendra formas de socialização dos meios de produção. Para o pensador alemão, os homens fazem a história, mas a fazem com as condições herdadas do passado e nem mesmo o governo da Comuna poderia ser formado exclusivamente de operários. Fazia parte dele também intelectuais, pequenos proprietários e profissionais liberais. Ao tratar da comuna desse modo, Marx falava da construção de um projeto socialista inerente ao movimento dos trabalhadores, em que a hegemonia estava com a classe laboriosa. Na posse, o governador inicia o discurso com uma máxima: “o povo chegou ao poder.” É uma proclamação que o seu governo representa uma orientação diferente, em relação aos interesses de classes dominantes que estiveram no controle do Estado. Embora se reconheça nas palavras um entusiasmo, a demonstração do que foi pronunciado verificou-se nos critérios de escolha dos secretários. Nenhum terá assento peremptório no cargo, a permanência efetiva-se com os resultados obtidos na função, conforme a correspondência do projeto previamente elaborado. Uma das ações impetradas pela Comuna foi contra a burocracia estatal com suas arbitrariedades de selecionar e promover funcionários para objetivar a dominação de classe. Entre as medidas estavam o princípio de revogabilidade, que implicava a demissão de quem perdesse a confiança da população; a eleição universal dos funcionários, que implicava o sufrágio no nível local e nacional e por último, a aplicação do mandato imperativo, obrigando o detentor de cargo político ou funcional, submeter-se a vontade dos trabalhadores organizados na representação do Conselho. Uma das contribuições trazidas pela Comuna foi relativa à educação. Marx reconhecia que os 72 dias de experiência não foram suficientes para reorganizar a educação pública, “no entanto, eliminando os fatores religiosos e clericais, [a Comuna] tomou a iniciativa de emancipar intelectualmente o povo.” Desse modo, o governo socialista que esteve cuidando da população de João Pessoa, iniciou o projeto “Sim, eu posso” de alfabetização, que em parceria com os abnegados educadores cubanos, travaram uma luta contra o analfabetismo e com a promessa de estender-se pelos rincões da Paraíba. A leitura é o primeiro passo para a emancipação cultural de um povo.
Escrito por jomarricardo às 02h59
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CASAMENTO E TRABALHO FEMININO NA OBRA DE LIMA
TRABALHO APRESENTADO NO II COLÓQUIO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA Lima Barreto (1881-1922) escritor nascido no Rio de Janeiro,descendente de escravos, de romance, crônicas e contos, retratou em sua obra diversos aspectos da sociedade brasileira. Este trabalho tem como objetivo investigar as representações existentes na sociedade sobre a condição social da mulher, a partir da instituição familiar e de sua inserção no mundo do trabalho. Para atingir esse escopo recorrer-se-á ao conceito de representação de Roger Chartier. A preocupação dele está centrada na busca da compreensão dos motivos, das posições e interesses dos atores sociais que designam a realidade a partir de sua cosmovisão. O método utilizado foi o indiciário com a finalidade de esboçar uma concepção de trabalho e matrimônio tendo como referência a situação da mulher, demonstra ser mais adequado porque este autor possui de forma fragmentada, noções e idéias, disseminadas no conjunto de sua obra, sobre a condição e a educação da mulher. Ao recolher-se essas proposições isoladas, particulares, almeja-se configurar uma proposta de nível geral. A prova disso foram as modificações verificadas no casamento na transição do século XIX para o século XX. Houve arrefecimento da determinação familiar na escolha do marido para as moças, concedendo autonomia para a escolha relativamente livre dos seus futuros maridos, com aceno de possibilidade de realizar um consócio pelo sentimento amoroso. No entanto, elas continuaram insatisfeitas na nova situação, demonstrada com o desagrado em relação aos cônjuges e na busca de conquistar os anseios em parcerias extraconjugais. Em relação ao trabalho feminino, verificou-se que sua inserção no mercado ficou obliterado em função da falta de escolaridade e do preconceito concernente ao trabalho manual, devido a determinados ofícios estarem associados ao trabalho escravo. Dessa forma, o estudo da temática pode fornecer elementos de reflexão no ensino de ensino de história em caráter interdisciplinar com a literatura para uma mudança de comportamento nas relações de gênero para as futuras gerações.
Escrito por jomarricardo às 19h16
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NOTA CONTRA A UTILIZAÇÃO POLÍTICA DAS RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA E EM DEFESA DA LIBERDADE RELIGIOSA NA PARAÍBA E NO BRASIL
neab-í Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas da UEPB
NOTA CONTRA A UTILIZAÇÃO POLÍTICA DAS RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA E EM DEFESA DA LIBERDADE RELIGIOSA NA PARAÍBA E NO BRASIL
Nós que fazemos o NEAB-Í (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas), da Universidade Estadual da Paraíba, vimos a público repudiar a utilização, de forma deturpada, da imagem das religiões de matriz africana, por parte de um segmento político-partidário no transcorrer do atual período eleitoral. Os rumores de campanha que procuram dissociar os ritos das religiões afro-brasileiras do Bem, da Verdade e de Deus, com claro objetivo difamatório, e, portanto, deseducativo, tentam semear a desorientação sobre o eleitorado e instaurar uma fraude ideológica, afirmando equívocos a respeito dos cultos praticados por nossos ancestrais africanos e disseminando a intolerância religiosa. Partimos do princípio de que todas as religiões são portadoras, em suas essências, da Verdade, porque intencionam indistintamente, na peregrina busca do sagrado, proporcionar a (re)ligação do indivíduo com as forças da natureza, com o transcendente e consigo mesmo. As variações de expressões emanadas do fenômeno religioso estão a depender da organização social que o originaram e dos lugares por onde se propagaram. Em razão disso, constatamos que a tentativa do monopólio da verdade pelos grupos que concorrem entre si pela imposição de sua cosmovisão e de suas práticas religiosas como únicas, determinam os conflitos através da falta do reconhecimento e de compreensão do outro em sua peculiaridade. Entendemos que uma sociedade em busca da plenitude democrática, apenas consegue atingi-la quando permite aos indivíduos a livre expressão das ideias políticas e das crenças religiosas. Por isso, insurgimos contra o preconceito religioso que perdura no Brasil há mais de 500 anos, forjado por uma cultura eurocêntrica e excludente. Pugnamos para que os afro-brasileiros possam usufruir o direito de praticar seus ritos e receber o respeito e a liberdade para assumirem-se como elemento de diversidade na sociedade brasileira. Ao desconhecer os fundamentos que instigam esse preconceito, pois os ensinamentos de toda religião apenas conduzem à fraternidade e o congraçamento das pessoas, defendemos uma sociedade justa, pautada na tolerância, e que as diferenças culturais sejam o alicerce para a construção da Paz e da concórdia entre homens e mulheres. Assim, como forma de repúdio a quaisquer formas de utilização política das religiões de matriz africana e tendo em vista que a Paz constitui-se como uma das principais bases do sistema democrático, pedimos: deixem o povo exercer a sua liberdade de escolha, deixem o povo votar em Paz! Campina Grande, 14 de outubro de 2010. neab-í Núcleo de Estudos Afro-Brasileiro e Indígenas da UEPB
Escrito por jomarricardo às 20h23
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I Encontro Regional de Estudos Rurais
O Departamento de Serviço Social da Universidade Estadual da Paraíba, em ação conjunta com o Núcleo de Estudos Rurais da Instituição, realizará, entre os dias 14 a 16 de setembro, no Centro de Educação (CEDUC), em Campina Grande, o I Encontro Regional de Estudos Rurais. O evento abordará o tema “Ruralidades, desenvolvimento sustentável, políticas públicas e cultura: perspectivas para pensar os direitos humanos e a cidadania na contemporaneidade”. O Encontro tem como objetivos reunir pesquisadores, estudantes e demais setores da sociedade para discutir aspectos sobre a ruralidade, o desenvolvimento sustentável e as políticas públicas voltadas ao campo e a cultura, em suas múltiplas características. Assim, a iniciativa buscará chamar atenção à sociedade brasileira sobre o homem do campo e demais pessoas envolvidas neste contexto, bem como suas diferentes experiências sociais, além de incentivar o pensamento sobre as políticas públicas elaboradas para os habitantes de áreas rurais e de que forma elas podem promover mudanças em suas vidas.
Assim, o I Encontro Regional de Estudos Rurais funcionará como uma excelente oportunidade para os alunos e profissionais de diversas áreas, a exemplo de Serviço Social, Comunicação Social, Direito, História, Geografia, Biologia, Engenharia Agrícola e Agronomia, dentre outras. Durante os três dias do Encontro, os participantes contarão com apresentações de atividades acadêmico-científicas e estarão envolvidos numa profícua troca de saberes.
Escrito por jomarricardo às 23h49
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Dolores Duran: Negra, pobre, socialista e sobredotada
Este ano comemora-se 80 anos de nascimento de Adileia da Silva Rocha, mais precisamente, ela nasceu no dia 7 de junho de 1930. A Folha de São Paulo, em sua coleção Raízes da Música Popular Brasileira, no seu volume 8, trouxe o álbum com o nome de Dolores Duran, que consta de CD, biografia e discografia. O texto é assinado pelo jornalista, crítico e produtor musical Rodrigo Faour. Nascida em uma família pobre, sempre recebeu apoio dos pais para seguir a vida artística. Aprendeu vários idiomas ouvindo músicas, o que muito contribuiu para divulgação do seu talento por entre um público seleto e abriu as portas que lhes deram acesso às gravadoras da época. Quando foi estudar inglês com uma americana, a professora telefonou para a mãe e disse que a moça “não precisava daquilo, que estava gastando dinheiro à toa, pois falava inglês tão bem quanto ela”. Apesar de ser intelectualmente notável, a jovem cantora não deixou de sofrer, certa vez, a mágoa do preconceito, numa boate do Rio de Janeiro. Esse constrangimento foi o tema musicado por Billy Blanc, um dos rapazes que passaram na vida afetiva de Dolores, na canção “A banca do distinto” (não incluída nessa seleção). A letra fala dos habitus da classe burguesa e dos artifícios engendrados para enfatizar a distinção dela em face dos segmentos considerados desclassificados. A condição social e étnica é representada pela distância que ela deve manter dos negros, pobres e iletrados, com o objetivo de conservar o status conseguido e garantir a dominação, através de uma superioridade enquanto brancos, ricos e cultos. Desse modo, um pequeno-burguês tem uma série de regras que regem seu comportamento: Não fala com pobre, não dá mão a preto Não carrega embrulho Pra que tanta pose, doutor Pra que esse orgulho [...] A vaidade é assim, põe o bobo no alto E retira a escada Mas fica por perto esperando sentada Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco afinal Todo mundo é igual quando a vida termina Com terra em cima e na horizontal O orgulho seria assim, apenas a forma arrogante de demarcar as diferenças, que se situam no cotidiano das relações de uma sociedade de classes, para reconhecimento de quem se considera superior de direito. Por sua a vez a morte, um elemento ontológico incrustado na realidade da vida, vem e afirma outro preceito. Com ela, as diferenças ficam na superfície, pois a retirada de cena dos atores, quando encerram as cortinas do último ato , a morte diz que todos são iguais de fato. Assim sendo, confessa-se no desfecho da canção, um ressentimento de origem judaico-cristão, presente em nossa cultura, que de modo concomitante, reconhece a superioridade que nega, pois ao protestar contra o escandaloso charme da burguesia, afirma-o para negá-lo, sem aniquilá-lo, resvalando no niilismo. Dolores Duran, todavia, como uma mulher oriunda das classes populares, insurgiu-se aos valores decadentes predominantes naquela sociedade, com suas atitudes. A primeira, escolhe a profissão de cantora, desenvolvendo desde criança suas aptidões vocais, contrariando o pensamento negativo em relação à reputação moral de quem seguia esse ofício; segundo, tinha relacionamentos amorosos que fugiam aos padrões enquadrados na instituição familiar; e por último, ainda jovem foi morar sozinha e segundo Rodrigo Faour, namorou fora dos “protocolos das mocinhas da época”. Além do mais foi simpatizante do socialismo e chegou a visitar a URSS com apoio do presidente Juscelino Kubitschek. Um aspecto fascinante de sua biografia foi a sua consciência étnica, constituída por suas vivências e a duras penas, pelas discriminações, em razão de ser pobre e negra. Foi aluna de canto. No conservatório aprendeu harmonias no piano, mas desistiu porque “A gente não vê preto em ópera”. Uma mulher a frente de seu tempo, teve uma breve vida, morrendo em 1959, dormindo.
Escrito por jomarricardo às 18h34
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